“É para isso que se abre a janela de transferências”

Roger Schmidt marcou presença no 22.º Fórum de Treinadores de Elite da UEFA, que decorreu nesta segunda-feira, 14 de novembro, em Nyon, na sede do organismo que gere o futebol europeu. No final da sessão de trabalho na Suíça, o técnico falou à Imprensa abordando vários temas da atualidade.

 

O treinador do Benfica fez parte de uma sessão de partilha de conhecimentos e discussão de assuntos da máxima importância do futebol internacional, onde também estiveram Christophe Galtier (Paris Saint-Germain), Oliver Glasner (Eintracht Frankfurt), Paulo Fonseca (Lille), David Moyes (West Ham), Erik ten Hag (Manchester United) e Rafa Benítez (sem clube). Com participação em videoconferência estiveram ainda: Carlo Ancelotti (Real Madrid), Luciano Spalletti (Nápoles), Stefano Pioli (Milan) e Thomas Tuchel (sem clube).

Em declarações à Imprensa, Roger Schmidt abordou os temas discutidos no Fórum, realçando ser “interessante pensar uma nova abordagem” para o futebol europeu, que em 2024 vai sofrer alterações nas suas competições principais. O técnico foi ainda convidado a falar do momento que a equipa atravessa e quais são os desafios seguintes após o Mundial. “Procuramos olhar apenas para o jogo seguinte, esta é a nossa abordagem”, revelou, acrescentando que a ambição da equipa é continuar a fazer o bom trabalho que a tem caracterizado…

 

Forum UEFA

 

Regressando ao ponto de partida desta época: que ideias transmitiu aos  seus jogadores no primeiro encontro?

Falámos sobre o que precisávamos para sermos especiais, para termos uma temporada bem-sucedida. Ficou claro que necessitávamos de forças básicas, isto é, que tínhamos de trabalhar muito e tornarmo-nos numa equipa com uma ideia de jogo muito bem definida. Focámos nestes tópicos para desenvolver o nosso trabalho.

Preocupa-o como a equipa reagirá quando perder um jogo?

Essa não é a minha forma de pensar… Claro que algum dia perderemos um jogo, não somos invencíveis, faz parte do futebol. Procuramos olhar apenas para o jogo seguinte, esta é a nossa abordagem. Pensar num jogo e focarmo-nos nele, em vez de olhar mais para a frente. Se estivermos completamente concentrados num jogo, será sempre possível vencê-lo. Começa zero a zero e temos 90 minutos para sermos a melhor equipa, criarmos mais oportunidades de golo e defendermos muito bem. Fazendo isso, temos sempre possibilidades de ganhar. Construir uma série com muitas vitórias e sem derrotas, a este nível, parece-nos ser uma coisa muito difícil quando olhamos para trás, mas nós pensamos jogo a jogo, e em cada jogo podemos vencer. Esta é a nossa forma de estar. Um dia, quando perdermos, também saberemos gerir a situação.

 

Forum UEFA

 

“O que temos de fazer na Liga portuguesa e nas outras Ligas é olhar para o nível da Liga dos Campeões e tê-lo como um objetivo”

Roger Schmidt

As principais competições nacionais vão ter um período de pausa para que se possa realizar o Campeonato do Mundo. Preocupa-o?

O calendário que temos não é o melhor para nós, para ser sincero. Sei que temos a Taça da Liga, em Portugal, e eu respeito esta competição, mas se compararmos o nosso calendário com os calendários de outros países, vamos ver que existe uma grande diferença. Na Alemanha, por exemplo, pararam agora e só retomam a competição no dia 23 de janeiro, são mais de dois meses sem jogos. Mas nós jogamos outra vez já no próximo domingo, quando arranca o Mundial. Parando agora, pode-se dar descanso aos jogadores, porque os últimos meses foram muito exigentes, e há possibilidade de fazer uma nova pré-época para preparar os jogadores para o resto da temporada. As equipas que podem fazer isso têm uma grande vantagem. O nosso calendário tem uma pausa, mas não existe verdadeiramente uma interrupção no ritmo, porque temos dois jogos na próxima semana, paramos, depois voltamos a jogar e a parar antes do Natal, e depois temos novo jogo entre o Natal e o Ano Novo… Não me quero queixar disso, mas não é perfeito. O nosso desafio, agora, é ter uma boa abordagem, prepararmo-nos bem para a Taça da Liga e, em simultâneo, dar algum descanso aos jogadores para lhes renovar a energia para o resto da temporada.

Pensa que será necessário reajustar a equipa em janeiro?

Como profissionais, temos de pensar sempre nessa possibilidade, é para isso que se abre a janela de transferências. Fazer alguma coisa nesse período depende das opções que tenhamos e das análises que façamos. Temos uma boa equipa, alguns jogadores não foram muito utilizados na primeira fase da época, também devido a lesões. Lucas Veríssimo e João Victor estiveram lesionados durante muito tempo, Julian Draxler e Morato também pararam por causa de lesões, Fredrik Aursnes é outro jogador que vai voltar… Temos boas opções, jogadores de qualidade, mas, para criar um equilíbrio perfeito na equipa, a janela de transferências de verão não é suficiente. Temos sempre de fazer alguns ajustes, mas, no nosso caso, não é uma grande necessidade. Vamos analisar o mercado e depois veremos se fazemos alguma coisa.

 

Roger Schmidt

 

“Sabemos que existe muita qualidade, não podemos ‘parar’ por termos alguns pontos de vantagem na liderança do Campeonato”

O Benfica tem o melhor ataque, a melhor defesa e o melhor marcador da Liga Bwin. Até onde poderá chegar a equipa?

Continuando neste nível, podemos terminar como campeões nacionais, esse é o nosso principal objetivo. Estão disputadas apenas 13 jornadas, temos muitos jogos pela frente. Nada está feito nem conseguido, competimos com outras equipas de grande nível e existem sempre surpresas na Liga, há muitas equipas boas. Vimos na época passada, por exemplo, com quantos pontos é que o FC Porto terminou… Sabemos que existe muita qualidade, não podemos “parar” por termos alguns pontos de vantagem na liderança. Continuamos humildes, a querer estar em forma e a querer fazer o melhor para mantermos o avanço, este é o nosso desafio. Fizemos um bom trabalho até aqui, por isso temos oito pontos de vantagem, mas temos de continuar.

Que leitura faz do que já alcançou nesta temporada?

Para ser honesto, ainda não alcançámos nada. O que alcançámos, até aqui, foi chegar à fase de grupos da Liga dos Campeões e depois o apuramento para os oitavos de final. Algo que é fruto do nosso trabalho, assim como ainda estarmos a disputar todas as competições. Na minha opinião, conseguimos jogar bom futebol, consistente, no último mês, sendo algo que nos traz confiança. O início no Benfica também foi ótimo. Senti-me bem-vindo, os jogadores foram de grande entrega logo desde a pré-época, com muita intensidade nos treinos e conseguimos fazer uma equipa com o nosso estilo de jogo. Começámos a focar-nos jogo a jogo, entrámos num bom momento e as coisas hoje estão como estão. O desafio agora é manter este nível, continuar a trabalhar no duro e nunca perder o foco. É preciso também recordarmos o que fizemos para estar neste nível. Temos de mostrar isso e, se tudo correr bem, podemos realmente alcançar algo importante no final da época.

 

Roger Schmidt

 

“Reforços de inverno? Temos sempre de fazer alguns ajustes, mas, no nosso caso, não é uma grande necessidade. Vamos analisar o mercado e depois veremos se fazemos alguma coisa”

Meteu na cabeça dos jogadores que podem vencer qualquer equipa. É algo que não é fácil, mas conseguiu-o fazer no Benfica. Qual é o segredo?

Não há nenhum segredo. Somos o Benfica, temos uma boa equipa, com bons jogadores e acreditamos em nós. Se tens uma equipa com boa mentalidade, um bom espírito coletivo, se todos os jogadores derem o seu máximo em prol do grupo e lutarem pela vitória, tudo é possível. Nós não fizemos nada de muito especial. A única coisa que fizemos foi crescer enquanto equipa e colocámos toda a nossa energia em campo. A nossa abordagem é a de não nos escondermos quando defrontamos as grandes equipas, antes pelo contrário. Nesses jogos queremos jogar ao nosso melhor nível e queremos mostrar o nosso estilo de jogo. Não mudamos a nossa abordagem completamente só porque jogamos contra equipas de topo. É algo muito importante e é a melhor maneira de jogar contra estes clubes. Os jogadores acreditam nisso, e com cada jogo e com cada triunfo ganhamos confiança e crença na ideia, que cresce.

Como é que o tempo útil de jogo pode ser melhorado em Portugal?

Hoje vimos dados estatísticos sobre esse tema e foi muito interessante: não é assim tão claro que o tempo útil de jogo em Portugal seja muito inferior ao das outras Ligas. O facto óbvio é que o tempo útil de jogo na Liga dos Campeões é superior ao das Ligas. Há uma diferença entre os jogos da Champions League e os jogos dos Campeonatos. E essa diferença é também evidenciada por parâmetros estatísticos como cartões amarelos e faltas. O que temos de fazer, na Liga portuguesa e nas outras Ligas, é olhar para o nível da Liga dos Campeões e tê-lo como um objetivo, uma referência que nos sirva de guia. Todos querem ver reduzidos os momentos de paragem num jogo.

 

Roger Schmidt

 

“Temos de estar focados jogo a jogo e não sonhar com alguma coisa ainda distante. Vamos manter esta abordagem, e depois tudo é possível”

Um dos tópicos deste Fórum foi o novo formato para as competições europeias. O que acha destas alterações? Vão trazer ainda mais adeptos ao jogo?

É interessante pensar numa nova abordagem. Claro que é difícil porque significa que vamos ter de jogar mais jogos. O calendário já está muito preenchido, mas acho que a ideia de ter mais adversários é boa, assim como uma nova situação com o ranking. Vamos ver qual será o formato final, a abordagem final, mas pode ser uma ideia ótima. Para os adeptos também pode ser interessante. Jogar contra oito adversários, de países e Ligas diferentes, pode ser diferenciador.

Fez alguma proposta ou apresentou alguma reflexão?

Discutimos em grupo sobre várias coisas. Falámos do novo formato da Liga dos Campeões para 2024, da Liga Europa e da Liga Conferência… Também falámos dos árbitros e das regras de futebol, com as suas pequenas mudanças. O VAR e a sua interferência também foi tema, assim como a questão da “bola na mão”, que para mim é ainda muito difícil de compreender quando é e quando não é. Ainda ontem [domingo] tivemos uma situação no jogo em que se fosse eu a decidir não seria mão na bola, mas o árbitro e o VAR decidiram o oposto. Gostava que isto se pudesse esclarecer e que todos tivessem o mesmo entendimento sobre este tópico. É uma questão que pode ser muito decisiva, já que na maioria das vezes significa um penálti, que é sempre algo importante numa partida.

 

Roger Schmidt

 

“É bom estarmos aqui [em Nyon] e termos uma tarde para abordar alguns tópicos, ouvir algumas opiniões”

Que opinião tem da arbitragem em Portugal?

Honestamente, acho que fazem um bom trabalho. Vi ótimas prestações dos árbitros na nossa Liga. Tenho uma ideia positiva sobre eles.

Pensa regressar aqui no próximo ano como treinador que venceu a Liga dos Campeões? É possível e é um sonho?

[risos] Vamos ver o que é possível alcançar nesta temporada. O que alcançámos, para já, foi fazer parte da Liga dos Campeões depois da entrada do novo ano. Foi o primeiro passo que demos, e agora em cada ronda temos de dar o nosso melhor para tentar seguir em frente. Nada é impossível, mas sabemos onde estamos. Todos sabemos o que outros clubes podem fazer e quais são os seus orçamentos, quais são os valores dos seus jogadores. Tudo isto faz parte do futebol neste nível, mas neste desporto tudo é possível. Não temos de olhar muito para a frente no futuro. Temos de estar focados jogo a jogo e não sonhar com alguma coisa ainda distante. Vamos manter esta abordagem, e depois tudo é possível.

É importante estar aqui em Nyon, neste Fórum?

É sempre bom falar com outros colegas. Conhecemo-nos quando nos defrontamos, mas normalmente não temos tempo para falar. É bom estarmos aqui e termos uma tarde para abordar alguns tópicos, ouvir algumas opiniões. Também é bom para a UEFA. Gosto destas reuniões, hoje tivemos pontos de discussão muito bons. Faz sempre sentido participar nestas sessões.

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