Bagão Félix: “Os meios de comunicação social aproveitaram todas as ocasiões para desancar no Benfica”

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“1 – Está praticamente terminado o campeonato acoplado. Nesta fase II, meios de comunicação social aproveitaram todas as ocasiões, umas certas, outras erradas, umas oportunas, outras fora do tempo, umas frias, outras requentadas, umas sérias, outras desonestas, umas em slow motion, outras em replay fastidioso, para desancar no Benfica. Está na moda. Excita certas audiências. É barato. E até falsamente popular. Ao invés, toda a glória e encómios para o novo campeão FC Porto e para o habitual 3.º classificado, o Sporting CP. Para eles, a santidade, a exemplaridade, a bonomia, a respeitabilidade, a alvura de processos, o prodígio das escolas de formação de craques. E até as suas contas ficaram miraculosamente ungidas, pois, por exemplo, isso de não pagar aos credores obrigacionistas que importância tem?

Na semana passada, e para não variar, mais um caso a envolver alegadamente o Benfica. Que teve honras de manchete neste jornal. É claro que me sinto muito incomodado com todas as notícias – reais, verdadeiras, falsas, imaginadas, empoladas – em momentos cirurgicamente escolhidos para darem à estampa. Desde logo, porque vou acusando a fadiga da sucessão de casos e não casos. Não nego que há muito de censurável no modo como certos assuntos e acções foram tratados no meu clube, independentemente do resultado em sede de Justiça. Certas práticas reveladas – que, todavia, não deverão ser muito diferentes do que suponho sejam também as de outros enclaves – não devem ser admissíveis em instituições que têm de honrar a sua história e prestigiar os pergaminhos da transparência e do rigor, seja a que nível for.

Contudo, em todas as notícias está presente, em todo o seu esplendor demagógico, a confusão entre ser arguido, ser acusado e ser condenado. Não por ignorância de quem o escreve ou diz, mas por, ao menos por omissão, ter o gérmen de fazer confundir as pessoas menos avisadas. Entre ser arguido e ser condenado, ainda que sub-repticiamente, os media bem sabem que deixam passar a ideia de que são praticamente a mesma coisa. Simultaneamente e grão a grão, ao não mais falarem de tantas práticas ilegais e ilegítimas que, porventura, terão estado na base de processos abertos, desmemoriam muitas mentes mais distraídas. Não vale tudo e os fins justicialistas não podem tornar eticamente bons meios reprováveis e contra a lei de um Estado de direito. Pormenor que, no fim de contas, muita gente esquece ou negligencia, a não ser que a situação em concreto aconteça em caso próprio…

Há, em Portugal, uma tendência irreprimível e quase compulsiva para transformar arguidos em condenados, em diferentes áreas e situações, para gáudio e conversa pretensamente moral de mentes atormentadas pela rotina de vida. Mesmo se, para descargo de consciência, venha acompanhada da muleta linguística de «alegadamente». Tal generalização é amplificada pela primeira condenação do arguido, que é a do longo tempo que demora até qualquer sentença transitar em julgado. Nessa altura, se inocentado, já tudo foi consumado e na memória futura fica apenas a de condenado, sem apelo, nem agravo, no pelourinho público, não raro, proporcionado por uma qualquer fuga de informação, mais lesta nuns casos do que noutros. Que fique bem claro que também não alinho em situações opostas, ou seja, a de inocentar, sem pestanejar, situações que, por alguma razão, são encetadas pelo sistema judiciário.

Entre a pureza da bondade de quem se apressa a menorizar práticas pelo menos criticáveis ou duvidosas e a maldade da impureza de quem identifica crimes e criminosos ao virar da esquina no Benfica, prefiro não fazer juízos definitivos e esperar que se concretize a justeza da frase que todo o mundo gosta de papaguear, qual seja a de que «confiamos e acreditamos na justiça».

O certo é que, depois de tanta notícia, análise, condenação prévia, e tudo fazendo correr toneladas de tinta, e até agora, as decisões definitivas das diferentes instituições de justiça têm sido o contrário do que nos impingiram sem freio em certos órgãos de comunicação social, para já nem citar a horda bárbara que ulula em redes sociais. Mas, está claro, se as decisões terminam em absolvição, tudo é quase silenciado nas televisões e tem quando muito o espaço liliputiano de um qualquer rodapé nos jornais, se comparado com a algazarra da notícia que antes detonara um «hediondo crime».

Assim foi, nessa coisa pavorosa de um ministro das Finanças ter sido convidado para a tribuna principal do estádio da Luz, logo se levantando labirínticas relações de causa e efeito. Já em Alvalade e sobretudo no Dragão, isso é frequente, sem que tal – e bem – tenha levantado alguma vez qualquer tipo de inquérito judicial e amplo noticiário. Assim foi, com o processo e-toupeira, em que a Benfica SAD e seus administradores foram ilibados, por decisão de primeira instância, depois confirmada pelo Tribunal da Relação. Assim foi com os vouchers que terminaram em nada e devidamente arquivados, como era de prever. Neste mesmo tempo, e ainda que não transitados em julgado, houve processos que condenaram o FCP e pessoas a ele ligadas pela divulgação de emails do ou sobre o Benfica.

Há poucos dias, houve duas decisões de tribunais favoráveis ao SL Benfica, no domínio da justiça desportiva. Uma, relativa à interdição de cinco jogos na Luz, devido a alegado apoio a grupos organizados de adeptos, foi agora revogada pelo Tribunal Arbitral do Desporto. A outra, do Tribunal da Relação de Lisboa, em que se considerou improcedente o recurso do Ministério Público da decisão que, em primeira instância, já absolvera o Benfica do castigo de um jogo à porta fechada (e multa) decidido administrativamente pelo Instituto Português do Desporto e da Juventude, por alegado apoio ilegal a grupos organizados de adeptos. E, perante isto, um silêncio ensurdecedor de parte de alguns jornalistas e opinadores amestrados!

Por fim, de um jeito particularmente obsessivo, há uma atenção implacável quando é sorteado um juiz para julgar o SLB, com imediatos pressupostos de enviesamento e não capacidade de isenção. Já noutros processos fora da capital tudo é linear, tudo é completamente independente dos arguidos, não havendo sequer necessidade de qualquer magistrado sentir necessidade de solicitar a sua dispensa (o que, porém, sucedeu com juízes que, designadamente no caso do SLB, tomaram essa iniciativa).

2 – Chegou ao fim o suspense do regresso de Jorge Jesus ao Benfica. Haverá gente a favor e gente contra, com argumentos certamente respeitáveis. Considerando as diversas alternativas em cima da mesa, não tenho dúvidas que foi concretizada a melhor opção. Bem sei que o treinador se excedeu nos primeiros tempos em que treinou o rival lisboeta e que, para quem tem boa memória, há coisas que, mesmo ditas há anos, custam a engolir, sabendo-se que foi o SLB que verdadeiramente catapultou Jesus para o estrelato. Como bem sei que foi o Benfica que o empurrou para fora do clube, sem qualquer justificação plausível.

De um ponto tenho a certeza: Jorge Jesus que ingressou no SLB em 2009 não é o Jorge Jesus que vai reentrar em 2020. Vai fazê-lo com mais experiência, mais sabedoria global, mais mundividência, mais prestígio, mais capacidade de potenciar jogadores e – the last but not the least – manifestamente com mais poder. J. Jesus saberá todos os segredos de fabrico do Benfica. Não precisa sequer de um minuto vestibular. Trata-se de um investimento, cujo custo é elevadíssimo, o que torna o próximo apuramento para a fase de grupos da Liga dos Campeões como decisivo, pois que, além do aspecto desportivo, será uma oportunidade para amortizar tão elevado encargo. Que tenha sorte e nos dê sorte, é o meu desejo, numa dupla quase profética de Jesus (Jorge) e Deus (João de)!

Já se ouvem os tambores de milhentas hipóteses de entrada de novos jogadores ou de dispensa de uns outros. Tudo porque, entre outras razões, se tem de admitir sem dificuldade que o plantel que Jorge Jesus encontrou e reabilitou em 2009 era francamente superior ao que herda, formado por um excesso de potenciais bons jogadores vindos da formação e pela exiguidade de atletas maduros e líderes nas diferentes posições-chave.

Uma nota final, para assinalar, com tristeza, a expressão de um sensacionalista e repugnante jornalismo sobre a vida pessoal de Jorge Jesus, pretensamente ligado a este seu regresso à Luz. Mesmo na tabloidização, descer mais baixo já não é possível. Só faltou dizer-se que o SLB estava por detrás dessa fantochada infamante.”